terça-feira, 2 de outubro de 2007

Fica sempre tanto por te dizer (a ninguém em especial)

Deve-te parecer tudo porcelana sem nada lá dentro, sem ti, sem flores e sem risos, nem sequer mistérios, apenas umas formas cor de porcelana por pintar que te vão mostrando que o tempo passa. Passa aos tropeções por esses brancos sólidos e até agradeces vagamente, nem sequer moves os olhos da tua mente pasmada num entorpecimento oco, tal é a tua determinação em que fique tudo como sempre te foi. E como podes tomar consciência que podes acordar se no final dos teus sonhos voltas a adormecer? Lês e entendes aqui que és o único que se importa com a tua vida, e assim deixas de estar paralisado nesse equilíbrio de forças ridículas e inócuas que é o narcisismo e a humilhação. É que se ao menos olhasses para o monte de cacos que deixaste para trás, se soubesses o que eles suportaram delicadamente para ti, se desejar não fosse tão inútil e tu realmente o soubesses em vez de apenas o desejares, talvez aí tentar não seria tão difícil nem viver seria tão estranho. Deixarias de ser uma porcelana sem nada lá dentro, sem ti, sem flores e sem risos, nem sequer mistérios, apenas cobardia.

segunda-feira, 20 de agosto de 2007

A minha relação com Deus

Era uma vez Deus todo-poderoso, benevolente, omnisciente e omnipresente. Foi recordado para a posteridade como um ambiente diferente que apareceu e desapareceu, uma mudança no ar e nos sentimentos das pessoas, na cor e no futuro, que nunca mais voltou, em parte por culpa de nunca ter vindo. Quem me disse isso foi a parte lógica de mim mesmo, ao reparar que se tal existisse não haveria sofrimento.

Fiquei sozinho então, a história passou a ser sobre mim e não Deus, sugeriram-me uma ilusão e recusei-a, arrogante como os outros. Sozinho observo o silêncio e sozinho com a ajuda da lógica mas sem os misticismos da ilusão tentei descobrir o que havia para descobrir. Descobri-me a mim, imperfeito, limitado, tão diferente de Deus, cego. Não consigo ver, não sei o que há para além de mim e não desenvolvo amores platónicos nem sou homem de preconceitos, sou agnóstico. A minha relação com Deus é condicionada pela verdade, que é quase tão desesperante e sufocante como a ilusão. Resto-me a mim para me governar, com os meus sentimentos e impulsos, inimigos e o acaso, neste mundo normal, nesta história que não acaba depois de Deus e que não sei se acaba depois de mim.

Texto feito numa aula de Português de Décimo Ano.

 
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